A Congada de Ilhabela é a maior manifestação folclórica cultural caiçara, que atravessou o tempo chegando aos dias de hoje com muitas características originais, que podem ser observadas em toda a sua organização. Acredita-se que este ritual é repetido há mais de século e meio, mantendo-se as falas, a música, as fantasias e a representação.
De acentuada aculturação africana bantu, a Congada de Ilhabela situa-se entre as que representam dois grupos que se desentendem, por querer ambos festejar São Benedito. A dramatização faz-se com partes faladas, cantos e danças, ao som da marimba de madeira e de atabaques. Observa-se no seu entrecho influência do complexo mouro-cristão do livro de Carlos Magno e os Doze Pares de França; leitura indispensável em Portugal, em todo o Brasil, e, surpreendentemente, na casa do caiçara Odé - que lia todas as noites para seus netos.
Todos aqueles que tomam parte na Congada de Ilhabela - congos e tocadores, o fazem por promessas suas ou de seus familiares. Os congueiros se consideram “escravos” de São Benedito, se dizem “promesseiros” e nunca se apresentam em outra ocasião a não ser durante a Festa em homenagem ao Santo.
Antigamente a Festa de São Benedito era organizada pela confraria de São Benedito, extinta mais tarde pelas autoridades religiosas. Em meados da década de 40 a Congada os padres - condenando o costume de unir à festa religiosa - , chegaram a proibir a entrada no recinto da Igreja os congos com seus trajes característicos.
A realização da Congada foi proibida pelos padres do Convento de São Francisco (São Sebastião) entre os anos de 1944 e 1956.
Atualmente é o Conselho Paroquial que se incumbe da parte religiosa e da quermesse, cuja renda auferida é destinada às obras de conservação e restauração da Igreja Matriz - erigida em 1809, que tem como Padroeira (também do município) Nossa Senhora D’Ájuda e Bom Sucesso.
Os festejos religiosos iniciam-se com um tríduo (festa eclesiástica que dura três dias) preparatório.
DEVOÇÃO A SÃO BENEDITO NO ARQUIPÉLAGO DE ILHABELA
Ilhabela é um municipio-arquipélago cujas as ilhas principais são as de São Sebastião (com 333 quilômetros quadrados), Búzios e Vitória. De uma população estimada de 15 mil ilhéus, cerca de 800 pessoas vivem em 17 comunidades caiçaras tradicionais, isoladas e auto-sustentadas, que subsistem basicamente da pesca e de pequenos cultivos agrícolas, com destaque para o cultivo da mandioca.
Na qualidade de estância baneária, Ilhabela tem no turismo a sua principal fonte de sustentação econômica, sem entretanto, apagar de seu passado as tradições e a cultura caiçara. Foi muito importante a participação dos negros nessa cultura.
São Benedito - o santo mais venerado no arquipélago, é negro. A festividade mais arraigada - a Congada -, revela aculturação africana. Embora não seja o padroeiro de Ilhabela, Santo Benedito - como é chamado pelos congueiros -, é o mais festejado e o que mais poderosa força tem para congregar todos os Ilhéus.
São Benedito também nasceu em uma Ilha: Sicília - na Itália-, no ano de 1524, filho de escravos etíopes, foi cozinheiro no convento de Santa Maria, nos arredores de Palermo. Faleceu em 1589 e foi santificado pela Igreja em 25 de maio de 1807.
Cognominado “o preto”ou “o mouro”, sua devoção já se fazia no Brasil no começo do século XVII, antes mesmo que a igreja a autorizasse.
O andor de São Benedito - cujo altar no interior da Igreja Matriz foi inaugurado em 1959-, só é ornamentado no dia da Festa - no domingo -, para sair na procissão. Todos os anos a vestimenta do Menino Jesus que São Benedito carrega nos braços é trocada por devotos cumprindo promessa, não sendo usada a mesma em outra festa.
Na festa de São Benedito em Ilhabela, cujo ponto culminante é a Congada, encontramos dois aspectos característicos dessa manifestação brasileira, quais sejam o culto religioso e o profano coexistindo lado a lado. São Benedito é, também, o padroeiro da Congada, juntamente com Nossa
Senhora do Rosário.
Soberano Rei de Congo
Encontrei com São Benedito
Descendo a sua igreja
Com a sua procissão
Com a filha de Maria
Cantando a sua oração
Com seus conguinhos do lado
E com sua espada na mão
São Benedito a desejar
Reino do coração
Participar na Congada é coisa Sagrada
Nos últimos anos, o grupo da Congada de Ilhabela é constituído, em média por 45 pessoas. Nos velhos tempos a haver quase uma centena de participantes. Um velho caiçara afirma que tomavam parte na Congada “umas duzentas pessoas”, que chegavam de canoas vindas de todas as praias do arquipélago.
Para os caíçaras, ter um papel na representação é tipo como algo sagrado, também conferindo importância na vida quotidiana. Há participantes de todas as idades. Os meninos mais novos são, geralmente, filhos ou netos de pessoas que já tomaram parte na Congada, conhecendo,portanto, o enredo da representação desde pequeninos.
Outrora os congos eram na maioria, pescadores. Hoje, são funcionários, empregados do comércio, pedreiros, marítimos, caseiros, aposentados, marceneiros, empregados de hotéis e restaurantes, etc.
O motivo da participação individual na Congada é sempre de ordem religiosa: promessa ou devoção. “Eu sou devoto de São Benedito” ou São Benedito é meu padrinho e sou cativo dele”, dizem os congueiros. O mais comum, no entanto, é a promessa que tanto pode ser pessoal, como feita pelos pais.
Há aqueles, ainda, que fizeram promessas, paralelamente à Congada, como confeccionar espadas de madeira, trabalhar no arranjo das barracas para a quermesse, ajudar no preparo das refeições para os congueiros, ou tocar marimba ou atabaque.
Os congos ou congueiros, para a representação, são divididos em dois grupos. O primeiro é formado pelos Congos de Cima, que compreende os Fidalgos ou Vassalos - considerados “cristãos”, e que simbolizam - de forma confusa, os “Pares de França”, com seu Rei. O segundo grupo é formado pelos Congos de Baixo- ou Congos do Embaixador , que são os “não batizados”, pagãos, mouros ou infiéis.
O congueiro “novato” começa sendo congo de Baixo; não havendo número fixo para estes. Os Fidalgos são 12 - na legenda dos Pares de França- mas há ocasiões que se apresentam com número maior.
A Congada de Ilhabela possui organização fixa e permanente. As figuras principais são o Rei, o Embaixador e o Secretário. A Rainha tem apenas função decorativa. Os congos se apresentam em fileiras de dois, com a frente para o Rei e sua Rainha, guardando uma certa distância do Embaixador.
No lado dos Fidalgos - trajando roupas onde predomina a cor azul, encabeçam as filas o Príncipe e o Secretário tidos como filhos do Rei. No final de uma das filas fica o Cacique de Cima, que é um personagem em ascensão na hierarquia dos congos, tendo já passado pelos papéis de Congo de Baixo, Cacique do Embaixador, sendo, agora , Cacique e Fidalgo do Rei.
Na fileira dos Congos do Embaixador que trajam vestes com predominância da cor vermelha , as figuras que se destacam são os dois iguais, congos antigos , que sabem os cantos e as coreografia, estando capacitados para guiar os demais.
Atrás dos guias ficam os contra - guias , que fazem o contracanto. Entre as duas fileiras dos Congos de Baixo está o Cacique do Embaixador - papel representando sempre por crianças.
As versões do enredo e a apresentação
O texto e a música da Congada são transmitidos oralmente e, por isso, houve grande alteração nas palavras ; principalmente naquelas de procedência africana bantu.
O enredo da Congada é explicado de muitas e diferentes maneiras pelos congueiros e caiçaras antigos da ilha. Para uns- como Pedro, que representava a personagem do Embaixador, “é a luta entre cristãos e pagãos - ou mouros - , mas é uma luta entre pai e filho. No final fazem tudo um povo só”e “os pagãos ficam batizados no último baile, quando eu chamo o pessoa e eles venham cantando: Demorado foi a prisão/ Vou pedir o batismo a cristão”.
Outra versão é a de que o Rei tinha tr6es filhos. Um deles - o Embaixador, desapareceu quando ainda pequeno. Estavam festejando São Benedito e o Embaixador foi com seus congos acabar com a festa e houve luta. No final, o Rei reconhece o filho e tudo acaba em paz.
Para o falecido Pedro Tuteca “Os ( congos) de cima são os cristãos (batizados). O filho do Rei de Congo passou para o lado dos pagãos e o Rei faz uma promessa para acabar com a luta entre eles e, recebendo a graça, festajam”.
Para outros, a cidade do Congo - na África, era dividida em dois reinos. O Reino do Império era o reino supremo e o Reino da Embaixada. O Embaixador com sua gente queria tomar o cargo do Rei . Este, sabendo disso, preparou seus soldados para atacar e começa a luta. O Rei prende o Embaixador e há uma festa em louvor a São Benedito.
Outra versão é a lenda das flores de São Benedito.
Santo Benedito era cozinheiro do Rei .Tinha pena dos pobres - aos quais sempre ajudava. Todos os dias ia buscar água com potes que iam cheios de comida que o santo, escondido, levava aos pobres.Um dia o Rei desconfiou e ficou esperando benedito sair para buscar água quando, de surpresa, perguntou o que o cozinheiro levava dentro dos potes. O santo respondeu que eram flores e, no mesmo instante, a comida transformou-se em perfumadas flores.
Deste dia em diante o Rei passou a acreditar na santidade de São benedito e, para festa. O Embaixador não gostou da homenagem e declarou guerra ao Rei. Como o número de soldados fiéis ao Embaixador era superior aos do Rei, este pediu auxílio a São Benedito. O Rei venceu a guerra e aprisionou o Embaixador que, depois, passou a crer em São Benedito.
A Meia Lua e os Bailes
Antes de dar início a Congada - no sábado da Festa, os congos reúnem - se na Colônia dos Pescadores; de onde saem em seus trajes e vão buscar o andor de São Benedito ( que se encontra na Igreja matriz) para, em seguida, percorrerem as ruas da Vila. O mesmo ritual é realizado no domingo de manhã, antes da missa dos congos.
Na “Meia Lua” os congos percorrem as ruas da Vila ao som da marimba ( de madeira) e dos atabaques. Enquanto quatro congos revezam - se para carregar o andor, outros dançam na frente a formação de fila por dois, com os Fidalgos do Rei colocados junto ao andor e os Congos do Embaixador indo e voltando, em passos corridos . O Rei , o Embaixador e a Rainha vão a frente do andor . ao chegar perto dos Fidalgos, todos desembainham as espadas e simulam uma luta, espada contra espada.
Toda esta coreografia recebe o nome de “Meia Lua”.
Já a Congada propriamente dita - que consta de partes faladas, danças e cantos, é apresentada em três partes chamadas “bailes”. O primeiro baile - que é realizado no sábado logo após a “Meia Lua”, é chamado Rodão ou Macamä ( Macambá); que é uma cantiga dos Congos de Baixo - quando vêm guerrear.O segundo baile é o Alvoroço - também chamado Jardim das Flores ou Baile Grande -, onde há uma guerra bem forte. O terceiro baile recebe o nome de São Mateus, onde o Embaixador é preso duas vezes.
Os três bailes são representados pelas ruas da Vila em locais determinados.
A arte de dar embaixadas
Sempre depois de um pequeno trecho em que dialogam, o Rei, o Secretário, o Príncipe e os Fidalgos, apresentam ou “dão”embaixadas - que são ditas em tom declamatório. “Dar uma embaixada”é muito importante; é me4smo uma honraria, explicam os congos.
Na congada de Ilhabela, embaixadas é apenas a fala dos Fidalgos, frente ao Rei, quando dizem versos em louvor a São Benedito, mencionando outros santos. Todos os vassalos do Rei têm uma embaixada para dizer, no início da Congada e em todos os bailes.
Cada um pode mais de uma embaixada, mas muitos demonstram alguma vergonha em falar, porque sabem que as palavras não estão correta - deixando a embaixada sem muito sentido -, ou simplesmente nem sabem o que estão dizendo.
Devido a deturpação oral, muitas vezes os versos perdem até mesmo a rima.
Para dar uma embaixada os Fidalgos saem dos lugares, desembainham a espada e falam em frente ao Rei. Os Congos do Embaixador, se quiserem, também podem dar uma embaixada.
Soberano Rei de Congo
O Cacique lá de baixo
Uma nova veio dá
O Embaixador de Luana (Luanda)
Contra nóis vai guerreá
E diz que tem certeza
Vencê nosso império reá
Soberano Rei de Congo
Brilha ouro e brilha a prata
Brilha a flor de maravilha
Também brilha Santana
Com sua filha Maria
Numa tarde igual a esta
Num dia de tanta alegria
Viava São Benedito
Também não estiveram aqui
Soberano Rei de Congo
São Benedito lá do céu
É um santo verdadeiro
No reino de sua Glória de Deus
Foi ele (grande) cozinheiro
Porque foi merecedor
Dos pães que levava aos pobres
Na cesta tornou-se flor
As flores eram brilhantes
Mais lindas que a luz do sol
Mas brilha São Bendito
No seu império maio
Soberano Rei de Congo
Era de manhã bem cedo
No dia de primavera
Encontrei São Benedito
Que vinha do céu à terra
Que vinha do céu à terra
Com seus anjos em companhia
Com o Menino Deus no braço
Filho de Virgem Maria
Cantando todos alegres
Vêm tudo em procissão
Rezando Ave Maria
E mais outras oração
São Benedito como padre
Pregava a santa benção
Junto dele Deus Menino
Pra nos dá a salvação
Soberano Rei de Congo
Era um belíssimo dia
De estação da primavera
Apareceu São Benedito
Que vinha do céu à terra
E numa formosíssima cesta
Trazia flores preciosas
Cravos, lírios e açucena
E outras flores mimosas
Vindo do céu novamente
Ao som de tão linda orquestra
Eu guardei aquelas flores
Para o dia de sua festa
PROCISSÃO DE SÃO PEDRO
Ilhabela realiza todos os anos, há mais de um século, a procissão de São Pedro, homenagem dos pescadores ao seu Santo Protetor.
Tal evento, sempre revestido de profundo sentido religioso, é acompanhado por toda a população Ilhabelense, inclusive por sua população turística.
A imagem de São Pedro, padroeiro dos pescadores, deixa a Igreja Matriz de Ilhabela e participa da Missa Campal realizada em frente a Colônia dos Pescadores. Em seguida, acompanhada pelo Pároco local e pelo Coro da igreja entoando o hino à São Pedro, a imagem é colocada em barco de Pescadores locais que conduzem a procissão com destino ao Bairro de São Francisco, em São Sebastião, Praia da Armação e, finalmente rumando para o ponto de partida no centro de Ilhabela. Neste momento, ainda acompanhada pelo Pároco e pelo Coro, a imagem é retirada do barco e conduzida de volta a Igreja Matriz.
Antigamente a procissão era acompanhada durante todo o trajeto por grande queima de fogos de artifícios que hoje é proibida durante o percurso estando restrita à partida e chegada da procissão.
Tanto os barcos pesqueiros como os de turismo são ornamentados, havendo uma Juria que premia os que mais se destacam.
Existe uma promessa antiga, feita por um pescador já falecido, Sr. João S. Carvalho, de enfeitar os barcos todos os anos com bandeirinhas coloridas de papel de seda. Sua filha D. Alice Carvalho, comerciante em Ilhabela, mantém até hoje a promessa feita por seu pai e se encarrega da ornamentação dos barcos, mantendo assim uma tradição de muitos anos.
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